Você está resolvendo um problema ou apenas silenciando um incômodo?

Marcelo Alves
Por Marcelo Augusto Alves Psicólogo Clínico e Neuropsicólogo

Desde muito cedo, aprendemos uma regra prática infalível: se algo nos incomoda, devemos agir para consertar. Se a sala está fria, fechamos a janela. Se o pneu furou, nós o trocamos. É um modelo perfeito, lógico e eficiente para lidar com o mundo exterior. O problema começa quando tentamos aplicar essa exata mesma lógica ao que acontece debaixo da nossa própria pele.

Tratamos a tristeza, o medo, as dúvidas e a ansiedade como se fossem pedras no sapato. Acreditamos que precisamos retirá-las antes de continuar a caminhar. O resultado dessa premissa é que começamos a enxergar nossa própria experiência interna como uma falha de sistema que precisa ser corrigida, deletada ou, no mínimo, silenciada.

Mas eventos internos não respondem aos mesmos comandos que um interruptor de luz.

Quando você tenta, a todo custo, não pensar em algo, o próprio esforço para esquecer mantém o assunto vivo na ponta da língua. Quando você se recusa a sentir o desconforto de uma conversa difícil, acaba escolhendo o distanciamento. Ao evitar o risco de uma rejeição, você também se blinda contra a possibilidade de uma intimidade genuína.

A tentativa exaustiva de evitar o próprio desconforto, seja trabalhando até a exaustão, rolando o feed das redes sociais por horas a fio ou mantendo relações na superfície, frequentemente consome mais energia vital do que o desconforto original.

É nesse ponto que a vida começa a encolher. Transformamos a nossa própria existência em uma gigantesca sala de espera. Adiamos projetos, relações e mudanças significativas até aquele dia mítico em que nos sentiremos "prontos", "confiantes" e livres de qualquer angústia. Esse dia, contudo, raramente chega, porque a vulnerabilidade é o preço de entrada para qualquer coisa que tenha valor real.

Existe uma diferença crítica entre alterar condições no mundo e lutar contra os próprios pensamentos. Resolver um problema é mudar de emprego quando o ambiente é insustentável. Silenciar um incômodo é aceitar um emprego insustentável e passar os fins de semana se anestesiando para tolerar a segunda-feira.

E se a urgência não for apagar o que você sente, mas escolher o que fazer com as suas mãos, seus pés e seu tempo enquanto sente tudo isso?

Não precisamos estar perfeitamente calmos para dar um passo na direção do que importa. O medo pode ir no banco do passageiro. A dúvida pode acompanhar o trajeto. O sofrimento não é um obstáculo para a vida; ele é a prova de que nos importamos com algo.

A psicoterapia não é um lugar onde você vai aprender a nunca mais sentir dor ou a "desligar" partes de si mesmo. É, na verdade, um espaço para desenvolver a flexibilidade de sentir o que quer que surja, sem que isso dite as suas escolhas. Se você sente que tem passado tempo demais lutando contra sua própria experiência e adiando a vida que gostaria de construir, agende uma sessão. Vamos olhar juntos para o que realmente importa.