Você resolve um problema complexo no trabalho em poucos minutos. As pessoas ao redor ficam impressionadas e elogiam sua capacidade. Mas, algumas horas depois, você se pega paralisado diante de uma tarefa simples, como organizar a agenda da semana, preencher uma planilha burocrática ou até lembrar de responder uma mensagem no WhatsApp.
A sensação é de que a conta não fecha. Como alguém tão capaz para algumas coisas pode travar tanto para outras?
Na clínica, chamamos esse descompasso de assimetria cognitiva. No universo das Altas Habilidades e Superdotação, isso é muito mais comum do que se imagina.
A sociedade costuma enxergar a superdotação como um pacote completo de perfeição. A expectativa geral é que você seja excelente em absolutamente tudo. Mas o comportamento humano não funciona em uma linha reta e perfeitamente equilibrada.
Nós somos um conjunto de habilidades que fomos aprendendo, refinando e usando ao longo da vida. Na psicologia chamamos isso de repertórios. Quando falamos de Altas Habilidades, estamos falando de uma pessoa que tem um ritmo de aprendizado e uma sensibilidade altíssima para certos contextos. O raciocínio lógico, a criatividade ou a linguagem verbal podem ter se desenvolvido de forma extremamente acelerada, porque você interage com o mundo de um jeito que favorece isso.
Por outro lado, outras habilidades podem ter se desenvolvido em um ritmo comum. Habilidades como o planejamento passo a passo de rotinas, a organização motora ou até mesmo a tolerância a ambientes muito estimulantes.
O choque entre esses dois ritmos é a assimetria. Não há uma peça quebrada em você. Há apenas repertórios diferentes operando em velocidades diferentes, batendo de frente com um ambiente que exige que você seja bom e rápido em tudo, o tempo todo.
Para ajudar a materializar como isso acontece na prática, preparei um pequeno termômetro. Antes de continuarmos a leitura, responda a estas 5 perguntas rápidas abaixo e veja como os seus ritmos estão interagindo com as exigências da sua rotina hoje:
É exatamente ao notar esses travamentos diários que a dor costuma aparecer.
A sua mente, que foi bombardeada por expectativas a vida inteira, começa a ditar regras pesadas. Ela diz algo como "eu sou inteligente, eu não deveria ter dificuldade com algo tão idiota". Comprar essa ideia como uma verdade absoluta gera culpa e exaustão.
Um primeiro passo importante é notar essa voz crítica e perceber que ela é apenas uma regra que você aprendeu, não um fato. A frustração vai aparecer quando o mundo cobrar algo que não é o seu forte. Tudo bem abrir espaço para sentir esse incômodo, sem precisar brigar com ele. A assimetria faz parte de quem você é.
O objetivo de entender o seu próprio funcionamento não é consertar você para caber em um molde de normalidade. É usar essa clareza para construir uma vida que realmente importe para você, respeitando seus limites e aproveitando de verdade os seus pontos fortes.
A avaliação neuropsicológica entra justamente como uma ferramenta para isso. Ela não serve para te dar um rótulo engessado ou um troféu de genialidade. Ela funciona como um mapa detalhado. Nós avaliamos como o seu comportamento interage com diferentes demandas, identificando de forma precisa onde estão os seus picos de facilidade e onde a assimetria está gerando sofrimento e travamentos.
Ter esse mapa em mãos muda as regras do jogo. Permite que você pare de lutar contra a sua própria natureza e comece a adaptar o seu ambiente para funcionar a seu favor.
Se esse cenário parece familiar e você sente que é hora de parar de brigar com os próprios ritmos, a avaliação neuropsicológica pode ser o nosso próximo passo. Entre em contato para agendarmos uma conversa e entendermos como esse mapeamento pode ajudar você a ter uma relação mais leve e funcional com as suas habilidades.
Referências Bibliográficas:
Alencar, E. M. L. S., & Fleith, D. S. (2001). Superdotados: Determinantes, educação e ajustamento. São Paulo: EPU. (Para compreender o panorama das demandas ambientais e ajustamento da pessoa com AH/SD).
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Terapia de Aceitação e Compromisso: O processo e a prática da mudança consciente. Porto Alegre: Artmed. (Base para a relação com regras verbais, desfusão e construção de uma vida baseada em valores).
Skinner, B. F. (1974). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix. (Fundamentação sobre a formação de repertórios comportamentais e interação com o ambiente, evitando explicações mentalistas).